5. GERAL 20.3.13

1. GENTE
2. GUSTAVO IOSCHPE  A VISO EVOLUTIVA DO APRENDIZADO
3. J.R. GUZZO  PASSADO IMAGINRIO
4. ESPECIAL  UM NOVO OLHAR PARA A MENTE DAS CRIANAS
5. EDUCAO  LIES PARA DAR UM SALTO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marlia Leoni

O REI QUE RI
Quando ROBERTO CARLOS, 71, est melanclico, suas canes fazem o pas chorar; mas quando o rei est feliz, bicho, ele embala qualquer festa. "Roberto vai lanar em maio o CD Reimixed. Msicas dele sero remixadas por DJs e ganharo uma batida de balada", diz Dody Sirena, empresrio do cantor. "Descobrimos que 30% do pblico de seus shows  composto de jovens." O cantor est to animado que tem falado at em usar vermelho. Os dentes alvssimos e a pele bronzeada  RC toma sol todos os dias  do sinais dessa revitalizada. "Ele tem trabalhado durante a noite. Numa delas me chamou para fazer uma escova de gloss. Pedimos uma pizza e ele deixou os talheres de lado. Disse que pizza era gostoso de comer com as mos", conta a cabeleireira Adriana Carlos. Mais revelaes na revista ALFA 

ME, NO ME FAA PAGAR MICO 
Ela j deu tanta mancada na vida  abusou de lcool e drogas, raspou a cabea, endoidou em pblico e perdeu por um tempo a guarda dos filhos, JAYDEN, 6, e SEAN, 7, s para lembrar algumas  que ir ao jogo de futebol dos meninos de microvestido, botinhas de pele e cobertor cor-de-rosa  mo  quase perdovel. Aos 31 anos, a cantora BRITNEY SPEARS j no  mais a loirinha saradinha que enlouquecia as plateias, mas ainda investe, com passadas rebolativas e alguns de seus 32 milhes de dlares, na carreira de pop star: tem disco novo, s sai de casa acompanhada de um guarda-costas e, sempre que aparece um paparazzo por perto,  batata acontecer uma ceninha do tipo o vento levantou.

OSSOS DUROS DO OFCIO
No auge dos levantes populares em pases rabes, RANIA, 42, a rainha da Jordnia, chegou a ser acusada diretamente de corrupo e favorecimento aos palestinos, que formam metade da populao do pas. A oposio vinda das tribos jordanianas autctones chegou a ameaar o rei Abdullah, e Rania, que  palestina, sumiu do mapa por uns tempos. Est reaparecendo aos poucos, sempre magra e elegante, caractersticas que foram ressaltadas na recepo a CAMILLA, 65, a mulher do prncipe Charles. Como manda o protocolo, cabeas coroadas, nem que sejam de um pequeno pas como a Jordnia, tm precedncia. Camilla lhe fez reverncia  a abaixadinha de 10 centmetros de perna que normalmente s dedica em grandes solenidades  sogra, Elizabeth II. 

A FAMLIA DO ROLE
Ver a skatista REINE OLIVEIRA, 30, de shortinho e regata  uma raridade. Reine compete profissionalmente na modalidade downhill speed, cujos equipamentos de proteo incluem macaco, capacete e  como dizer?  "bundeira", um acolchoado de algodo usado debaixo da roupa. Ganham os esportistas que descem ladeiras em alta velocidade fazendo mais manobras. "J bati 100 quilmetros por hora. E tambm j ca e fiquei toda em carne viva", conta Reine, que  bicampe sul-americana e apresenta um programa sobre skate na televiso. Seu filho, LUCCA, pegou o jeito da me e aos 8 anos  campeo mirim nacional. "Mudei para o interior de So Paulo para podermos andar com tranquilidade", diz Reine. 

A PESO-LEVE DA POLTICA
Filha, neta e prima de polticos, a modelo CAROL MAGALHES, 34, nunca se animou a entrar para o ofcio, mas harmonizou-se bem com o namorado, o deputado federal Guilherme Mussi. "Ns nos conhecemos pelo Twitter e nos damos superbem porque eu superentendo os assuntos dele", diz Carol, que herdou do pai, o falecido deputado Lus Eduardo Magalhes, 4000 livros e parte da Rede Bahia, afiliada da Globo. Me de um garoto de 12 anos, a modelo tem se dedicado a ficar bem magrinha  est pesando 49 quilos  para a estreia de um blog em que falar sobre moda e sade. E a desafiar os invejosos da cintura zero: "Adoro me olhar no espelho e conseguir contar as costelinhas". 


2. GUSTAVO IOSCHPE  A VISO EVOLUTIVA DO APRENDIZADO
     At Freud, que s pensava... naquilo, reconheceu a descoberta mental como uma importante fonte de prazer para o homem em "A civilizao e seus descontentes". De fato, h poucas atividades mais estimulantes do que aprender coisas novas, conseguir perceber a luz onde antes s havia trevas. O aprendizado ocorre no crebro. Durante muitos sculos, o crebro foi tratado como uma caixa-preta,  qual no podamos ter acesso direto, e cujas maquinaes s poderiam ser depreendidas por meio da observao cuidadosa e perspicaz do comportamento de pessoas. A maioria dos profissionais de educao ainda subscreve a esse paradigma. Sua viso sobre o funcionamento cerebral , portanto, formada pelas hipteses no cientficas de pensadores da virada do sculo XIX para o XX, especialmente Jean Piaget (1896-1980), Lev Vygotsky (1896- 1934) e Henri Wallon (1879-1962). 
     Desde essa poca, porm, a compreenso que temos do crebro fez grandes avanos, e a neurocincia est conseguindo ligar habilidades e comportamentos humanos a reas e processos cerebrais especficos, abandonando o modelo "caixa-preta" por outro em que o crebro  percebido como um rgo material, que tem uma fisiologia, no qual agem clulas, neurotransmissores etc. Uma das descobertas que essa cincia j conseguiu fazer  que, ao aprendermos, mudamos a prpria arquitetura fsica do rgo. Como bem descreve, no fascinante In Search of Memory, Eric Kandel  um dos lderes da pesquisa nesse campo, vencedor do Nobel de Medicina por suas contribuies , a formao de uma memria de longo prazo altera nossa rede neuronal em pelo menos duas maneiras: no s aumenta a fora do sinal da sinapse na rea relevante como cria novas sinapses (as estruturas neuronais que permitem a passagem de um sinal qumico ou eltrico entre neurnios vizinhos).  to impossvel entender como seres humanos aprendem sem compreender o funcionamento do crebro quanto querer chegar de um lugar a outro sem saber o que so ruas, estradas, rios e pontes. E a maneira responsvel de buscar esse conhecimento  por meio da cincia. Por mais brilhante que seja um observador da fase pr-cientfica, ignorar todo o avano da cincia nas ltimas dcadas seria no apenas anacrnico como irresponsvel. 
     Um dos insights mais importantes desse perodo de pesquisa  que o crebro , assim como um olho ou brao, fruto de um processo evolutivo, moldado ao longo de centenas de milhares de anos para aumentar nossas possibilidades de reproduo e sobrevivncia. Como bem mostra Steven Pinker em livros como How the Mind Works e The Blank Slate, a ideia de que nosso crebro  uma tbula rasa cujos contedos so preenchidos exclusivamente por processos culturais  equivocada. Entre os muitos achados dessa viso evolutiva est a descoberta de que o crebro evita o pensar. Pensar  uma atividade dispendiosa, tanto em termos de tempo como de energia, e sempre que possvel o crebro substitui o pensamento por um procedimento automtico gravado na memria. (J imaginou como seria impossvel, por exemplo, dirigir um carro, se a cada esquina precisssemos pensar em como fazer uma curva, como indicar aos outros motoristas que estamos dobrando, calcular o ngulo certo da virada do volante, pensar onde est a alavanca do pisca-alerta etc.?) 
     Como mostra o psiclogo cognitivo Daniel Willingham em Why Dont Students Like School?, o crebro pensa em duas situaes: quando  estritamente necessrio (no h procedimento na memria que nos ajude) e quando ns acreditamos que seremos recompensados por resolver determinado problema. A recompensa? Pequenas doses de dopamina, um poderoso neurotransmissor associado aos circuitos de prazer do crebro, liberado quando se resolve uma questo (e tambm durante o consumo de cocana). Para que a dopamina seja liberada, o fundamental  calibrar a dificuldade do problema. Se ele  fcil  demais e o aprendiz j sabe a resposta antes de pensar, no h pensamento nem, portanto, dopamina. Se ele  difcil demais e a pessoa j pressente que no conseguir encontrar a soluo, o crebro "desliga-se": no havendo a possibilidade de dopamina, no vale a pena gastar o maquinrio neural. 
     Mas o que , em termos neurolgicos, pensar? Pensar  combinar informaes de maneira diferente. Essas informaes podem vir do ambiente externo e/ou da memria de longo prazo. A memria de longo prazo  aquela que armazena informaes e processos que esto fora da nossa conscincia imediata. A tabuada, por exemplo: ela no estava na sua mente antes de eu mencion-la e desaparecer de novo em alguns minutos, mas, sempre que voc precisar fazer uma multiplicao, ela vir, facilmente,  mente. O local do crebro em que esse novo processamento de informaes se d  a memria operacional (ou "de trabalho", do ingls working memory). A memria operacional tem capacidade limitada  e, quanto mais perto ela estiver de seu limite, mais difcil vai ficando o pensar. Sua capacidade  determinada geneticamente. Pensar bem, portanto, envolve quatro variveis: informaes externas, do ambiente; fatos na memria de longo prazo; procedimentos na memria de longo prazo: e o tamanho do espao disponvel na memria operacional. 
     A primeira implicao dessa descoberta  que o domnio de fatos no apenas ajuda no ato de pensar: ele  indispensvel. Como mostra Willingham, dcadas de pesquisa em cincia cognitiva revelam que, se voc no domina as informaes bsicas de determinado assunto, no conseguir ter um raciocnio analtico/crtico a seu respeito. At a leitura se torna mais fcil se o crebro j conhece o assunto em questo: a pesquisa mostra que uma pessoa com tima habilidade de leitura e pouco conhecimento de um assunto entende menos de um texto sobre aquele tema do que outra pessoa que l mal mas conhece o assunto. A ideia atualmente em voga de que no  necessrio ensinar informaes a alunos, j que elas esto disponveis na internet, , portanto, furada. O desafio no  ensinar sem memorizao (o que  impossvel), mas memorizar apenas o necessrio para desenvolver as habilidades de pensamento crtico, descartando aquilo que  memorizado somente com o objetivo de ser regurgitado novamente em uma prova. 
     Se a memria  importante, surge a outra pergunta fundamental: como o crebro memoriza? Nosso crebro ficaria sobrecarregado se memorizssemos tudo o que aprendemos. A maioria do que aprendemos passa pela memria de trabalho e  descartada, no chegando nunca  memria de longo prazo. Como decidimos o que  armazenado? Infelizmente isso no depende da nossa vontade de memorizar algo ou apenas da quantidade de vezes que tenhamos tentado. O crebro decide da seguinte maneira: se voc pensa cuidadosamente sobre algo,  porque  importante para voc e provavelmente precisar ser pensado  novamente  e, assim, deve ser retido. Na formulao feliz de Willingham, "a memria  o resduo do pensamento". Se voc pensar sobre algo e o entender, provavelmente vai se lembrar depois. Veja que essa compreenso deixa claro que o processo do pensamento  cumulativo: quanto mais se pensa, mais se conhece  e, quanto mais se conhece, mais fcil  o pensamento, e assim sucessivamente. Por isso  que crianas que vm de situaes de menos estmulo intelectual em casa precisam de uma escola excepcionalmente boa, e nos primeiros anos de ensino, para equiparar o jogo. Do contrrio, os filhos de privilegiados tero uma vantagem exponencial e insupervel ao fim do processo escolar. 
     E como um instrutor faz para que um aluno pense em algo? Provavelmente a resposta mais comum dos nossos professores seja "fazer com que aquele contedo tenha relevncia para a vida do estudante", apostando que a ligao emocional do assunto com a vida do aprendiz desperte sua ateno. A cincia da cognio sugere que essa no  uma boa aposta: existe uma relao entre emoo e memria, mas a emoo precisa ser bastante forte para que tenha impacto na memria, e claramente h poucos assuntos de um currculo que podero ser ensinados assim. A chave para o aprendizado no est no que  ensinado, mas em quem o ensina e como. Deve haver uma conexo pessoal entre o aluno e seu mestre, e para que haja essa ligao o instrutor precisa ser percebido como uma pessoa do bem por seus alunos e ter uma aula bem organizada. Se no existir essa conexo pessoal ou se o material a ser ensinado no estiver bem organizado, no haver aprendizagem. (Uma dica dos neurocientistas sobre como organizar o material: o crebro humano adora histrias. Conte uma histria.) 
     A ltima lio da cincia da cognio  sobre a importncia da repetio. Repetir um aprendizado aumenta nossas chances de domin-lo. Primeiro, porque a repetio espaada  um antdoto contra o esquecimento. Segundo, porque a repetio faz com que certos procedimentos sejam automatizados e, assim, possam sair da memria operacional e ir para a memria de longo prazo. Lembre-se: pensar ocorre quando combinamos novas informaes, vindas do ambiente e/ou da memria de longo prazo, e isso acontece na memria de trabalho. Quanto mais espao livre tivermos na memria de trabalho e quanto mais informaes tivermos na memria de longo prazo, melhor ser nossa capacidade de pensamento. A prtica importa porque faz as duas coisas: ao automatizar processos, libera espao na memria de trabalho e enriquece a memria de longo prazo. 
     Talvez seja por isso que, apesar das reclamaes de milhes de alunos e de sculos de tentativas de reforma educacional, a maioria das boas escolas de hoje no difere muito da Academia de Plato, de quase 2500 anos atrs. O modelo socrtico-platnico  no qual um professor emocionalmente envolvido com seus alunos  capaz de transmitir seus conhecimentos de maneira organizada e estimulante, exigindo ao mesmo tempo esforo contnuo de seus alunos  parece ter descoberto intuitivamente o que a cincia de dois milnios depois referendaria sobre o funcionamento de nosso crebro. A escola continuar passando por muitas evolues e refinamentos, mas revolues s devem dar certo se nosso crebro for significativamente alterado. 
GUSTAVO IOSCHPE  economista


3. J.R. GUZZO  PASSADO IMAGINRIO
     Uma das ltimas modas no PT, no governo e na procisso de devotos que acompanha o ex-presidente Lula  lembrar a figura de outro ex-presidente, Getlio Vargas, para defender-se do desabamento moral em que todos esto metidos hoje. A inteno desse novo plano mestre, mencionado em documentos do partido e tema dos discursos a serem feitos nas "caravanas" que o ex-presidente planejou para este ano,  vender ao pblico a seguinte histria: Lula e seu "projeto para o Brasil" esto sendo agredidos, em 2013, pelo mesmo tipo de ofensiva que causou a liquidao do governo de Getlio em 1954. A primeira reao  fazer uma sequncia de perguntas: "O qu? Quem? Do que  mesmo que esto falando?". A segunda reao  constatar que, sim, o estado-maior do PT est dizendo isso mesmo: um personagem de outro mundo, de uma poca morta e de um Brasil que no existe mais est de volta entre ns. Ele foi tirado do tmulo numa tentativa de convencer o pblico de que episdios de corrupo, sejam l quais forem os fatos que comprovam a sua existncia, so apenas uma inveno das foras anti-povo para armar "golpes de estado" contra governos democrticos e dedicados a causa popular, como teria sido o de Getlio  e como seriam hoje os de Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff. 
     A ltima causa popular que empolgou o PT foi a campanha em favor da eleio do deputado Henrique Alves para a presidncia da Cmara e do senador Renan Calheiros para a presidncia do Senado. Naturalmente, como acontece em quase tudo o que o partido faz hoje em dia,  uma clara opo para enterrar-se mais ainda na vala comum da baixa poltica brasileira; Alves e Renan, sozinhos, valem por um samba-enredo completo sobre praticamente todos os vcios que fazem a vida pblica nacional ser a misria que ela . Mas, para o PT de 2013, ambos so aliados preciosos das massas trabalhadoras, junto com Fernando Collor, Paulo Maluf, empreiteiros de obras, fugitivos do Cdigo Penal, bilionrios experientes em lidar com os guichs de pagamento do Tesouro Nacional, e por a afora. Para o governo  tudo gente finssima, empenhada em ajudar Lula no seu projeto de salvar o Brasil. O erro, na viso petista,  apontar o que est errado  a j se trata de uma campanha que a direita reacionria, golpista e totalitria estaria fazendo contra Lula, como fez no passado contra Getlio, com o apoio da "grande imprensa" e de "setores do Judicirio". Sua arma de hoje, igual  de ontem,  o "moralismo"  delito atribudo automaticamente a quem aponta qualquer ato de imoralidade na vida pblica. Getlio, de acordo com esse sermo, foi um "mrtir do moralismo". Lula, os condenados do mensalo e toda a companheirada que frequenta o noticirio policial so as vtimas da direita moralista no momento. 
     Vtimas da direita?  curioso, porque aquilo que se v parece ser justamente o contrrio. Para ficarmos apenas no caso mais recente da srie: que tipo de vtima poderia ser, por exemplo, a senhora Rosemary Noronha, a ex-chefe do escritrio da Presidncia da Repblica em So Paulo e amiga pessoal de Lula, denunciada h trs meses pelo Ministrio Pblico por crimes de corrupo passiva, formao de quadrilha, falsidade ideolgica e trfico de influncia, junto com 23 outros suspeitos? Da trinca de irmos Paulo, Rubens e Marcelo Vieira, os scios mais visveis de "Rose", o primeiro era tratado  pelo interessante apelido de "Paulo Grana", conforme se constatou com a gravao de mais de 25.000 telefonemas trocados entre os membros da quadrilha. Fizeram de tudo. Conseguiram at mesmo ressuscitar o ex-senador Gilberto Miranda, dono de um espetacular pronturio aberto ainda nos tempos do governo Jos Sarney; imaginava-se que estivesse aposentado, mas constatou-se agora que continua na vida de sempre, metido com a privatizao de ilhas e reas pblicas em volta do Porto de Santos. Ao longo desses trs meses, Lula no foi capaz de dizer uma nica palavra sobre o caso; no se sabe, na verdade, o que poderia ter dito. Mas toda a conversa ao seu redor apresenta as Roses, os Paulos e os Gilbertos como rplicas atuais dos alvos utilizados h sessenta anos pela campanha contra Getlio. Moral da histria: sem nenhuma explicao que possa justificar o que fazem no presente, Lula e seus aliados tentam pescar desculpas em histrias do passado. Como praticamente ningum sabe nada sobre elas, podem cont-las do jeito que quiserem. 
     O normal  imaginar o futuro. O PT de hoje imagina o passado. Tudo bem, mas h dificuldades claras com esse conto  os fatos, teimosamente, no combinam com a lio que Lula e o PT querem tirar dele. A primeira dessas dificuldades est na simples passagem do tempo. Getlio Vargas morreu quase sessenta anos atrs, em agosto de 1954. S os brasileiros que hoje tm mais de 59 anos estavam vivos quando isso aconteceu; e quem, a esta altura, pode  estar interessado no assunto? A imensa maioria da populao no tem a menor ideia de quem foi Getlio, e boa parte dos que sabem alguma coisa a respeito  indiferente ao personagem e  sua obra; despertam tanto interesse, hoje em dia, quanto a batalha de Tuiuti ou as realizaes do regente Feij. Mais difcil ainda, nessa tentativa de redecorar Getlio Vargas como um santo para as massas brasileiras de 2013,  vender o homem como um poltico "democrtico" ou "de esquerda".  o contrrio, justamente, do que mostram a razo e os fatos. 
     Getlio chegou ao poder em 1930 por meio de um golpe apoiado pelos militares; derrubou o presidente Washington Lus e impediu a posse de seu sucessor legal, Jlio Prestes, de quem havia acabado de perder as eleies presidenciais. Dos dezenove anos que passou no governo, quinze foram como ditador. Seu Estado Novo criou uma censura oficial, legislava por decreto e permitia prises sem processo. Perseguiu o movimento comunista brasileiro, que tentara derrub-lo num levante armado em 1935, com uma selvageria que nada fica a dever aos piores momentos da represso no Brasil. Aprovou a utilizao macia e sistemtica da tortura contra presos polticos; permanece clebre, at hoje, o pedido do advogado Sobral Pinto para que fosse aplicado o artigo 14 da Lei de Proteo aos Animais em favor de seu cliente Harry Berger, militante comunista que, na condio de ser humano, foi torturado at entrar em colapso mental. A filosofia de Getlio sobre esse tipo de problema, obedecida pela Justia que o seu governo controlava, era bem curta. "O Estado Novo no reconhece direitos de indivduos contra a coletividade", resumiu ele em 1938. "Os indivduos no tm direitos. Tm deveres." Foi, enquanto pde, um aliado virtual da Itlia de Mussolini, de quem copiou as leis trabalhistas, e da Alemanha de Hitler, a quem apoiava negando vistos a judeus que tentavam refugiar-se no Brasil. Seu chefe de polcia e homem de confiana Filinto Mller era um aberto simpatizante do nazismo. Em 1936, ambos entregaram  Gestapo, que a mandou para a morte no campo de extermnio de Bernburg, a alem Olga Benario, esposa do dirigente comunista Lus Carlos Prestes e presa como ele  no Brasil; Olga estava grvida no momento em que foi deportada. Nenhum presidente na histria do Brasil esteve to diretamente ligado a um crime de morte, de forma to comprovada, como Getlio Vargas no caso de Olga Benario. E este  o homem que Lula apresenta hoje como seu heri. 
     Outro problema srio, que sempre aparece quando se tenta demonstrar que Getlio Vargas foi vtima de um golpe aplicado pela direita brasileira,  encontrar o golpe. Getlio no perdeu a Presidncia da Repblica por ter sido deposto num golpe da oposio extremista e conservadora, e sim porque se suicidou. Polticos veteranos, acostumados a enfrentar conflitos durante a vida toda, no se matam por causa de discursos da oposio, manchetes agressivas na imprensa e atos de indisciplina militar; vo  luta contra quem os ameaa. No h dvida de que Getlio, em agosto de 1954 e j a caminho do fim de seu mandato, dessa vez obtido pelo voto, estava numa situao extremamente complicada. Agentes de seu governo eram acusados de crimes graves, incluindo o homicdio. Os adversrios exigiam sua renncia; cartazes com a letra "R" eram colados na fachada das residncias. O principal porta-voz da oposio radical, o deputado e jornalista Carlos Lacerda, comandava no Congresso, na imprensa e na rua uma campanha incendiria por sua deposio. Havia aberta insubordinao militar; oficiais da Aeronutica interrogavam na base area do Galeo, de forma francamente ilegal, funcionrios de seu governo, e generais assinavam manifestos contra ele. Getlio tinha a seu favor a lei, a popularidade e a opo de usar a fora do estado para enfrentar a desordem criada por seus inimigos. Preferiu se suicidar com um tiro no peito no Palcio do Catete  aos 71 anos de idade, foi vencido por uma combinao fatal de amargura, desiluses, cansao e depresso em estgio avanado. 
     O desfecho da histria  bem conhecido. Getlio foi substitudo por seu vice-presidente, Caf Filho, exatamente como previsto na Constituio. Um ano depois, na data marcada pelo calendrio eleitoral, houve eleies livres e Juscelino Kubitschek, que no tivera a mnima participao na ofensiva contra Getlio, foi eleito presidente da Repblica, posto que ocupou at o fim do seu mandato. Nenhum dos inimigos polticos do presidente morto, a comear por Lacerda, jamais veio a ocupar cargo algum nos governos que se seguiram. Que raio de golpe teria sido esse, em que o presidente no  derrubado e os golpistas no pem o p dentro do palcio? Mais difcil ainda  achar semelhanas entre agosto de 1954 e maro de 2013. No existe hoje o mnimo sinal de indisciplina militar. O governo tem maioria disparada no Congresso Nacional, onde acaba de eleger os presidentes das duas casas. Ningum pede, nem de brincadeira, a renncia de Dilma. A principal figura da oposio, caso se consiga encontrar uma oposio no Brasil, no  um barril de plvora como Carlos Lacerda  ao contrrio,  um poltico que poderia concorrer ao ttulo de oposicionista mais camarada do mundo. Uma parte da imprensa, com certeza, no d sossego ao governo. Mas no h um nico jornalista ou dono de empresa de comunicao brigando para ser presidente da Repblica. 
     Os lulistas condenados no mensalo tiveram sete anos inteiros para preparar suas defesas, e todos os seus direitos foram respeitados no processo. Rudos falando em virar a mesa, at agora, s saram do prprio PT e de gente como o malfadado Paulo Vieira, da trinca de "Rose"; foi pego numa gravao dizendo que os juzes do mensalo "no vo sair de l ilesos", que era preciso "parar o Brasil" e que "o negcio agora  tumultuar o processo". Manifestaes de rua, s em favor do prprio governo, com nibus fretados, lanches grtis e camisetas que o cofre pblico, de um jeito ou de outro, acaba pagando. As foras conservadoras, enfim, parecem perfeitamente felizes com o governo, entretidas em comprar helicpteros, touros de raa e peruas Cayenne blindadas. Esto dentro do ministrio e da base aliada. Segundo o prprio Lula, nunca ganharam tanto dinheiro como em seus dois mandatos de presidente. Golpe de direita? Getlio? Lacerda? No d para ver nada disso. 
     Lula, com o PT atrs, fala em salvar a sua biografia, seu projeto nacional e a reputao do partido. Teriam mesmo de fazer essas coisas todas, pois reas inteiras do governo federal viraram, nos ltimos dez anos, uma espcie de cracolndia para viciados no consumo ilegal de verbas, favores e empregos pblicos. Para isso, porm, precisam se defender com base nos fatos do presente. Getlio Vargas no pode ajud-los. 


4. ESPECIAL  UM NOVO OLHAR PARA A MENTE DAS CRIANAS
Os cientistas j decifram com preciso os mecanismos de transtornos infantis como o dficit de ateno e a hiperatividade.  um fascinante caminho para tratamentos que conduzam mais rapidamente a uma vida normal e feliz.
GABRIELA CARELLI E CARLOS GIFFONI

     Em 1902, o mdico ingls George Still, um dos pais da pediatria moderna, analisou 43 crianas com srios problemas de ateno, indisciplinadas e agressivas. Em seu estudo, publicado na prestigiosa revista cientfica The Lancet, esse comportamento irascvel foi tratado como uma falha congnita, um defeito no crebro que impedia o "controle moral" infantil. Dois anos depois, o mdico W.A. Potts, tambm ingls, descreveu a doena de forma mais detalhada. O mal, transmitido pelos pais, transformava pessoas normais em seres egostas, desinibidos a ponto de '"no terem vergonha de nada". A doena em questo, hoje vastamente investigada,  o transtorno de dficit de ateno com hiperatividade (TDAH), que afeta uma em cada vinte crianas em todo o mundo  razo pela qual, na sopa de letrinhas geracional, a gerao Z, que compreende meninos e meninas com at 12 anos, tambm  chamada de Gerao Ritalina. Um distrbio srio que, ao contrrio do que se pensava no incio do sculo passado, no  uma falha de carter hereditria, nem o suprassumo dos maus modos. 
     Se no tratado, o TDAH pode arruinar a vida de uma criana erroneamente tachada de desatenta, atormentada e malcriada  as notas baixas so apenas o comeo dos problemas. O TDAH, o mais popular, conhecido e diagnosticado transtorno psquico infantil,  um estopim poderoso de distrbios ainda mais srios, como a ansiedade, em suas mais diversas formas, a depresso e o transtorno bipolar. Todo pai ou me que tem um filho um pouco mais agitado, que no presta ateno na aula e apresenta um desempenho aqum do esperado, uma vez ao menos suspeitou, depois de tanto ouvir falar do assunto, que o filho tivesse o to falado dficit. Tambm deve ter se perguntado, em algum momento, se devia levar a criana ao psiquiatra e medic-la com Ritalina ou um medicamento similar, um estimulante capaz de melhorar a cognio, o foco e acalmar (parece um despautrio, mas no ) um paciente com TDAH. 
     Lanada em 1956, a Ritalina  a mais antiga e a mais comum entre as chamadas drogas da inteligncia (ou drogas da obedincia, em sua verso mais irnica), as plulas usadas por estudantes e executivos para turbinar o desempenho intelectual. O princpio ativo do medicamento, o metilfenidato,  um derivado da anfetamina, substncia comum nos remdios para a perda de peso (e proibida no Brasil desde outubro de 2011). Considerada de baixa potncia, seus efeitos no crebro so mais brandos do que os desencadeados pelas anfetaminas tradicionais. Ainda restam dvidas sobre seus mecanismos de ao.  certo que a droga estabiliza as concentraes de dopamina e noradrenalina no crebro. Pacientes com TDAH podem ter nveis alterados de um ou de ambos os neurotransmissores, o que impediria o neurnio que recebe uma informao de process-la corretamente. Alguns especialistas acreditam que os problemas so outros  a falha estaria nos receptores dessas substncias no interior das clulas nervosas. "A medicao faz com que os dois neurotransmissores permaneam mais tempo na fenda sinptica, o espao entre um neurnio e outro, aumentando o estmulo das clulas nervosas, atenuando a agitao e aprimorando a concentrao", explica o psiquiatra Adriano Predeus, de So Paulo. "Mesmo em pacientes sem o distrbio, o metilfenidato promove uma melhora na ateno. No entanto, s quem, de fato, tem TDAH se torna mais calmo e menos agitado ao consumir o remdio", ressalva Predeus. 
     Foram os aparelhos de neuroimagem, desenvolvidos nas ltimas dcadas, que permitiram enxergar as alteraes funcionais no crebro de pacientes com e sem TDAH. Em condies similares, os registros revelam maior atividade neuronal em diversas regies cerebrais em quem tem a doena. As novas tecnologias esto por trs do aumento exponencial no diagnstico de transtorno bipolar e depresso em crianas, alm de propiciarem um melhor entendimento da dislexia (a dificuldade em ler e escrever) e da discalculia (problemas com clculos em geral), ambas causadas por pequenas leses cerebrais. 
     De todos os transtornos constatados, nenhum  to ruidoso quanto o TDAH. A doena mudou de nome uma dezena de vezes e foi descrita das mais diferentes maneiras, tanto em relao s causas quanto as consequncias, desde sua primeira descrio, h exatos 111 anos. Apesar das evidncias cientficas, ainda h, inclusive no meio acadmico, quem no acredite na existncia do distrbio. Ele seria um mal que, afinal de contas, a palmatria de antigamente ou a conversa sria com os pais ou psiclogos de hoje em dia resolveria. Pululam informaes contraditrias sobre o assunto. No  de estranhar, portanto, a apreenso das famlias a cada nova notcia sobre o aumento exponencial no consumo do metilfenidato e na possibilidade, mesmo que remota, de ter de medicar o filho. Um levantamento divulgado pela Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria, a Anvisa, no ms passado, revelou um aumento de 75% na prescrio de drogas irms da Ritalina para menores de 16 anos em um perodo de trs anos. Houve espanto com a suposta supermedicao. 
     O temor no se justifica. Na maioria quase absoluta dos casos, os mdicos que prescrevem estimulantes para seus pacientes menores de idade "endiabrados", que apresentam prejuzos nos desempenhos escolar e social, no so monstros malvados cujo objetivo de vida  fazer mal a pobres criancinhas.  evidente que no. Nem  esse o intuito dos psiquiatras que assinam as receitas de ansiolticos e outros psicotrpicos para tratar a bipolaridade infantil  outro balaio de discrdia. O fato  que, at agora, goste-se ou no da Ritalina e companhia, nada se mostrou to eficiente e seguro quanto os estimulantes de baixa potncia para amenizar os sintomas do TDAH. Foi o que revelou a mais completa e mais longa pesquisa j feita sobre o tema. Bancado pelo Instituto Nacional de Sade dos Estados Unidos e conduzido pelo mdico Stephen Hinshaw, da Universidade da Califrnia, em Berkeley, o estudo avalia, h catorze anos, a ao da Ritalina no tratamento de pacientes mirins com dficit de ateno. No primeiro teste, foram analisadas 579 crianas com TDAH, por catorze meses. Elas foram divididas em quatro grupos: o primeiro tomava somente o remdio. O segundo s fazia terapia. O terceiro combinava os dois tratamentos. O ltimo grupo no era submetido a nenhuma dessas prticas mdicas. A cada dois anos os pesquisadores refazem a avaliao. Houve melhoras em 95% dos pacientes que tomam a medicao  assim que a droga entra na corrente sangunea, a ateno aumenta, o raciocnio se torna preciso e a criana, mais calma, percebe quanto incomoda os outros, algo do qual os pacientes com o distrbio no tm noo. "A Ritalina funciona muito bem na maioria dos casos. No vejo razo para tanto questionamento. Deixar de tomar Ritalina ou similar significa repetir o ano vrias vezes e no ter amigos, isolar-se socialmente. A vida da criana, e a dos pais, vira um inferno", disse Hinshaw a VEJA. 
     Mais de 40% dos alunos que cursam as sries iniciais do ensino, com at 7 anos de idade, apresentam dificuldades em acompanhar o que lhes  ensinado. Destes, 10% tm algum distrbio psquico que compromete o aprendizado  o equivalente a meio milho de aluninhos no Brasil. Lanado na semana passada, o livro Manual dos Transtornos Escolares, do psiquiatra Gustavo Teixeira, lista mais de duas dezenas de condies que esto por trs do fracasso na escola. A maioria dos pequenos com dificuldades causadas por alteraes na bioqumica cerebral no recebe tratamento adequado. Parte disso acontece por despreparo dos professores brasileiros. "Pouqussimos so capazes de identificar um distrbio. A maioria acha que um rendimento baixo  resultado de falta de vontade do aluno", diz Teixeira.  muito comum, por exemplo, crianas com altas habilidades ou superdotadas serem diagnosticadas como patologicamente desatentas, por exemplo (veja o quadro na pgina ao lado). Outro montante de meninos e meninas segue sem tratamento por preconceito dos prprios pais. Os transtornos psquicos ainda so um tabu. Para muita gente, as doenas da alma no passam de melindre, desculpas dos fracos, incapazes de enfrentar os problemas da vida (quem j no perdeu um parente, o emprego, ou ficou negativo no banco?, questionam os incrdulos). "Foi somente com o surgimento do Prozac, h quase trs dcadas, a droga da felicidade capaz de melhorar as condies de pacientes com depresso, que os tratamentos psiquitricos se popularizaram de fato", afirma o psiquiatra Adriano Predeus. 
 inconcebvel supor que a rigidez na educao, e apenas ela, possa tratar distrbios cerebrais srios  tais condies precisam ser combatidas com medicamentos e acompanhamento psicolgico, na maioria das vezes com os dois apoios. No se pode confundir os cuidados que filhos com transtornos de comportamento exigem com outra postura, a das to badaladas mes tigres. No livro que iluminou esse tipo de personagem, a professora de direito americana de origem chinesa Amy Chua faz sua pregao e ensina como transformar crianas normais em campes de tudo, de virtuoses no violino a ganhadores de todos os prmios de melhor aluno. A me tigre no est interessada, decididamente, em ajudar pais de crianas doentes a torn-las normais  ou quase.  melhor esquec-la. 
     As recentes descobertas a respeito dos distrbios psquicos na infncia j promoveram uma transformao no tratamento de muitos transtornos, mas ainda h muito para descobrir. Na infncia, a linha fina que separa os diferentes transtornos mentais  ainda mais tnue do que na idade adulta. A depresso, caracterizada por estado inexplicvel de melancolia aguda, pode se expressar por um excesso de agressividade e irritabilidade nos mais novos. Sintomas confusos tornam comuns diagnsticos equivocados. Estes, sim, so um motivo de preocupao para os pais. A cincia tem aberto avenidas que ajudam a desvendar a mente infantil. Da famlia, exigem-se cautela e compreenso. 

GANGORRA EMOCIONAL
Jlia Vasconcellos, de 5 anos, foi expulsa da escola em agosto do ano passado por causa de seu comportamento extremamente agressivo. A menina atormentava a professora, os coleguinhas e destrua, nos acessos de fria, o que via pela frente. Ningum era capaz de domar Jlia durante suas crises. Recentemente, ela foi diagnosticada com transtorno bipolar, distrbio que provoca alteraes radicais do humor. Sua vida mudou com remdios e terapia. 

REBELDIA NO, DOENA 
Os quatro filhos de Hlio Guimares foram diagnosticados com transtorno de dficit de ateno com hiperatividade.  exceo do mais novo, Micael, de 11 anos (o segundo da esq. para a dir.), todos tomam Ritalina: Vernica, a mais velha, de 18, Jefferson, de 16 (sentado), e Emerson, de 12. Separado da mulher, Guimares achou que o comportamento errtico dos filhos fosse uma reao ao divrcio. "Hoje sei que  doena", diz o pai.

DIAGNSTICO ERRADO
A gacha Sol, de 10 anos, no se adaptava  escola americana em que estudava. Excelente aluna em seu primeiro ano na instituio, ela precisou de reforos para no repetir as sries seguintes. A me, Olvia Leidems, mudou a garota de colgio neste ano, depois de ouvir de professores que a menina podia ter transtorno obsessivo-compulsivo ou de ateno. "Um neurologista e um psiclogo enterraram as suspeitas", conta Olvia.

QI ALTO TAMBM  PROBLEMA
Lauren, de 13 anos, cursou as primeiras sries do fundamental em um dos mais tradicionais colgios de Porto Alegre. Suas notas no eram l essas coisas. Descartadas as possibilidades de algum transtorno de comportamento, os psiclogos descobriram a razo do baixo rendimento: a menina tinha um QI acima da mdia. Nem sempre o mais inteligente  o melhor da sala.

TROPEANDO EM PALAVRAS
Aos 7 anos, j alfabetizada, Eduarda ainda se atrapalhava com as letras  ela escrevia de maneira espelhada (como na foto), sintoma clssico de dislexia. Ela demorou a ler e identificar os fonemas. Aos 9 anos, o distrbio foi identificado. "Em quatro meses de acompanhamento pedaggico, a escrita e a leitura de Duda melhoraram 100%, diz a me, Elaine Martins.

BULLYING NA SALA DE AULA
Em 2010, quando cursava o 4 ano, a estudante Vitria, de 11 anos, foi vtima de bullying. O agressor era a prpria professora, que ameaou expor no mural da sala, em So Paulo, uma de suas redaes. "Ela queria mostrar a todos quanto Vitria era burra", conta a me, Ana Paula Ferreira. A menina tinha dificuldades com ditados e textos porque  dislxica. Vitria est em tratamento h seis meses.

TORTURA CORRETIVA
Castigos de diversas tipos, inclusive fsicos, como a palmatria, eram comuns nas escolas at o incio do sculo XX. Transtornos como o dficit de ateno costumavam ser tratados como meras falhas morais.

GNIO TAMBM TEM DE ESTUDAR
 muito comum o diagnstico equivocado de transtorno de dficit de ateno com hiperatividade (TDAH) em jovens que so superdotados. Pelo menos 3 milhes de brasileiros em idade escolar tm superdotao. Eles apresentam desempenho bem acima da mdia em uma ou mais disciplinas  podem se destacar nas cincias, nas artes, na matemtica, nos idiomas ou em tudo isso ao mesmo tempo. Em comum, exibem aquele desinteresse descomunal pelo que acontece nas salas de aula das escolas tradicionais  onde at pode haver um tablet, mas a forma de ensinar e fazer com que um aluno assimile o conhecimento de ensino no mudou muito desde o sculo passado. Entediados, eles interrompem o professor, atrapalham os colegas, so campees das brincadeiras fora de hora. Quando o assunto  boletim escolar, podem subir ao pdio, porque quase sempre so excelentes alunos. Outros nutrem tamanho desprezo pelo contedo que lhes  passado que, apesar de mais capazes do que o restante da turma, no do a mnima para provas e para a colorao avermelhada das suas notas. 
     O paulistano Matheus Camacho  o mais novo "geninho" brasileiro. Ele foi o mais jovem medalhista da 9 edio da Olimpada Internacional de Cincias. A competio foi realizada em dezembro, em Teer, no Ir, e reuniu 180 concorrentes de 28 pases. Matheus, aluno do 9 ano do ensino fundamental, de So Paulo, competiu com colegas do ensino mdio e os superou em experimentos que envolvem conhecimentos avanados de qumica, fsica e biologia, da grade curricular do nvel mdio. Camacho  um gnio que leva a superdotao a srio. Estuda diariamente das 7 s 19 horas. Ele comeou a competir em torneios de inteligncia no ano passado e j coleciona quatro medalhas, trs delas de ouro. Neste ano, pretende participar de pelo menos cinco desafios do tipo. No basta ser gnio... 

QUANDO PUNIR E EXIGIR S AGRAVA A SITUAO
Um quarto das crianas com idade entre 6 e 16 anos tira notas ruins no por desleixo, mas por sofrer de distrbios srios que promovem alteraes na bioqumica cerebral. Todos eles precisam ser diagnosticados e tratados por especialistas.

TRANSTORNO DE DFICIT DE ATENO COM HIPERATIVIDADE (TDAH)
Peso Gentico: ALTO
O que : A falta ou a m absoro de dopamina no crtex pr-frontal diminuem a capacidade de concentrao e a memria da criana.
Em casa: O paciente alterna momentos em que tenta sem sucesso fazer muitas tarefas ao mesmo tempo com momentos em que parece estar to profundamente concentrado que se desliga do mundo.
Na escola: Em geral, so alunos inconstantes, com altos e baixos no boletim de notas. Alguns pacientes diagnosticados com TDAH so extremamente criativos e chegam a ser classificados de superdotados.
O papel dos pais: Os portadores desse distrbio entendem muito bem as regras, como qualquer criana, e precisam aceitar os limites impostos pelos pais ou professores. Se ao transtorno se somar a indisciplina, o quadro ficar mais complicado.

TRANSTORNO DESAFIADOR OPOSITIVO
Peso Gentico: BAIXO
O que : A concentrao de serotonina e de dopamina no crebro sofre mudanas anormais quando a criana  submetida a situaes estressantes como a morte de um ente querido, a separao dos pais ou a chegada de um irmozinho. Ela fica mais agressiva. Meninos com idade entre 6 e 9 anos so mais suscetveis ao distrbio.
Em casa: A irritabilidade  tanta que a criana se atira no cho, fica agressiva, xinga, d socos e chutes quando tentam control-la.
Na escola: Se a rotina da criana que sofre de transtorno desafiador opositivo no se altera abruptamente, ela pode at se destacar nas disciplinas pelas quais tem interesse. Nas outras aulas, tende a gastar mais tempo e energia confrontando o professor do que estudando.
O papel dos pais: A atuao firme dos pais mostra ao filho que, seja qual for o problema, a hierarquia familiar ainda esta valendo. A agressividade dele no pode desautorizar os pais. A lenincia e a contemporizao, nesses casos, s agravam o distrbio.

TRANSTORNO DE CONDUTA
Peso Gentico: BAIXO
O que : Em 75% dos casos, o transtorno desafiador opositivo se degenera em transtorno de conduta.
Em casa:  grande a probabilidade de que os pacientes sejam meninos de 10 a 12 anos. Neles, a agressividade deixa de ser episdica, motivada por alguma mudana na rotina, e passa a ser constante. O resultado  o isolamento da famlia e dos amigos. Mentir passa a ser um hbito.
Na escola: Sem motivo aparente, o portador tende a agredir os colegas fsica e verbalmente.  o rebelde sem causa. Por nada, quebra carteiras ou rouba material escolar. Passa a consumir bebidas alcolicas e drogas. Repetente serial,  indiferente ao sofrimento dos outros e pode vir a ser sdico.
O papel dos pais: Os pais precisam identificar o transtorno o mais cedo possvel e impor, sem concesses, limites e regras claras de conduta. Se o distrbio for diagnosticado cedo e houver atuao firme dos pais, a chance de cura ser muito boa.

DISLEXIA
Peso Gentico: ALTO
O que : Alterao fsica de reas cerebrais responsveis pela leitura e pela escrita. A criana com danos graves na rea de Broca constri frases gramaticalmente incorretas, mas cujo sentido pode ser entendido (exemplo: "Ela era com fome"). Aquelas com danos graves na rea de Wernicke fazem frases gramaticalmente corretas, mas sem sentido (exemplo: "A fruta tinha sabor vermelho"). A dislexia, em vrios nveis de gravidade, afeta 10% de crianas e adolescentes.
Em casa: Crianas dislxicas continuam confundindo visualmente as letras "p" e "b" ou "d" e "q" mesmo depois dos 7 anos de idade.
Na escola: Seu pior desempenho  nas disciplinas portugus e redao. A dificuldade de interpretar textos atrapalha tambm o aprendizado de matrias que exigem leitura, como histria e geografia.
O papel dos pais: Ser portadora desse transtorno no d  criana o direito a ser indisciplinada ou rude. As regras continuam valendo para ela.

DISCALCULIA
Peso Gentico: ALTO
O que : Leses em regies do crebro ligadas  percepo espacial,  orientao e ao clculo. Cerca de 6% da populao mundial tem esse distrbio com algum nvel de gravidade.
Em casa: Dificuldade de participar de jogos e brincadeiras que exigem capacidade
de localizao e orientao.
Na escola: Os portadores tm desempenho ruim em disciplinas como matemtica, fsica e qumica.
O papel dos pais: Sem perderem a autoridade, devem demonstrar compreenso e apoio por reconhecerem a raiz biolgica do distrbio.

DEPRESSO
Peso Gentico: ALTO
O que : Um estado melanclico duradouro e aparentemente invencvel sem causa externa. A depresso  uma doena causada pela escassez de serotonina e noradrenalina no crebro. O distrbio afeta 1% das crianas em idade pr-escolar, 2% em idade escolar e pode chegar a 6% dos adolescentes.
Em casa: A criana raramente se empolga com alguma atividade. Em certos casos, mostra-se irritadia e agressiva. Chora com facilidade e tende a assumir a culpa em situaes em que nem sequer se envolveu. A modulao da voz  montona.
Na escola: Vai mal em praticamente todas as matrias. Tanto faz estar em aula ou no recreio. Encontra-se sempre isolada e triste.
O papel dos pais: Perceber quando a melancolia da criana deixa de ser um abalo emocional momentneo, com causa definida, para se tornar uma tristeza paralisante e prolongada. A depresso  uma doena sria. Precisa ser diagnosticada e tratada corretamente por profissionais

TRANSTORNO BIPOLAR
Peso Gentico: MDIO
O que : A criana alterna perodos prolongados de depresso com fases de euforia, ambos causados pelo excesso de noradrenalina e dopamina no crebro. Esse distrbio atinge 0,5% de crianas e adolescentes.
Em casa: A perda repentina e acentuada de peso, o aumento da agressividade e a hipersexualidade so alguns sintomas associados ao transtorno bipolar em sua fase eufrica ou manaca.
Na escola: Nos perodos de euforia, com autoestima exacerbada, as crianas ficam mais produtivas. A repentina perda de interesse nos estudos marca o comeo da fase depressiva desse distrbio, resultado da exausto fsica e psquica da fase manaca.
O papel dos pais: Mesmo para especialistas, o diagnstico do transtorno bipolar  complexo. Por isso,  essencial que os pais observem e relatem ao mdico os sintomas apresentados pela criana com a maior preciso possvel.

Fontes: Gustavo Teixeira e Adriano Predeus

COLABOROU ANDR ELER


5. EDUCAO  LIES PARA DAR UM SALTO
Um grupo de municpios brasileiros descobriu que  possvel atingir metas e avanar no ensino usando as provas dos alunos como bssola da qualidade. Parece bvio, mas quase ningum faz isso.
NATHLIA BUTTI

     Os ltimos termmetros da qualidade do ensino tm sinalizado um lento, mas persistente, avano no Brasil. Por isso chamou tanta ateno um novo relatrio da ONG Todos pela Educao, que mede, ano a ano, o progresso na sala de aula de escolas pblicas em todo o territrio brasileiro. O documento fez soar um alerta: desde 2008, quando a ONG fincou metas para a educao e passou a vigi-las de perto,  a primeira vez que se flagrou uma piora  justamente no j to combalido ensino mdio. Mas houve um grupo que passou ao largo do atoleiro de notas vermelhas, e o fez de forma to enftica que mereceu destaque em uma lista  parte,  qual VEJA teve acesso. Desse panteo emergiram 161 municpios  os nicos entre os 5500 no pas  que cravaram 100% das metas em todas as sries avaliadas desde o marco zero da aferio. Ao contrrio do que alguns poderiam supor, seu inesperado sucesso no se deve a um aporte fenomenal de verbas. Em certos casos, v-se inclusive o oposto: um elevado padro acadmico disseminando-se em ambientes muito simples e repletos de precariedades. 
     O que aproxima esse conjunto de municpios, antes de tudo,  um hbito pouco arraigado na cultura brasileira  o de no descontinuar as polticas para a sala de aula.  algo de valor inestimvel na educao, rea em que os resultados levam dcadas para aparecer. O grupo dos invictos no novo ranking tambm vem aplicando com boa dose de disciplina a cartilha da meritocracia, conseguindo rastrear e premiar as escolas que destoam da mdia. Isso ajuda a explicar sua proeminncia, mas no esclarece tudo. Um dos fatores cruciais para seu bom desempenho passa por uma prtica menos visvel, que essas redes de ensino vm semeando de forma pioneira no Brasil: a de usar o resultado das grandes radiografias do ensino de forma muito concreta, atacando as deficincias apontadas, em vez de deix-las restritas ao campo das anlises tericas  como  mais comum. "De diagnsticos, estamos cheios. Falta agora comear a usar esses mapas para efetivamente conduzir as aulas, que no Brasil ainda so muito baseadas em modelos antiquados", refora o economista Cludio de Moura Castro, articulista de VEJA. 
     O estado que mais emplacou municpios no rol dos 161 em destaque foi Minas Gerais (com 59 representantes na lista), seguido do Cear (com quinze)  ambos afoitos  ideia de adotar as avaliaes como bssola. Em Minas, a secretaria estadual levou adiante uma iniciativa que, por seus princpios e resultados, merece ateno  o Programa de Interveno Pedaggica. Com base nas avaliaes dos alunos, um grupo de especialistas formula um detalhado relatrio para cada escola, enfatizando os pontos altos e baixos. A partir da, traa um plano estratgico para enfrentar os gargalos, junto a professores e diretores. Esse to aguardado momento do calendrio escolar mineiro ficou conhecido como "dia D". A equipe que presta essa consultoria tambm produz cartilhas e manuais e atua na prpria sala de aula quando isso se faz necessrio. Os avanos recentes so um indcio de que o caminho  acertado: a poro de crianas do 3 ano do ensino fundamental que lem e escrevem como seus colegas de pases mais ricos dobrou desde 2007. 
     Os nmeros trazidos  tona pelo Todos pela Educao dimensionam o longussimo caminho que resta ao Brasil percorrer rumo  excelncia mundial.  exceo de uma marginal melhora nas primeiras sries escolares, nenhuma meta de aprendizado foi alcanada. No ensino mdio, revelou-se que no mais do que 29% dos estudantes detm o conhecimento desejado da lngua portuguesa, o mesmo baixo nvel de 2009. A proporo dos que se situam na faixa adequada  isso mesmo, apenas adequada  em matemtica  mais acanhada ainda: 10% (resultado pior que o do levantamento anterior, que havia apontado 11%). Isso significa que os demais 90% ainda ignoram conceitos bsicos. Se nada for feito para acelerar o passo, o plano de deixar a rabeira e aproximar-se do patamar dos pases mais desenvolvidos at 2022 ficar somente na esfera das boas intenes. "O resultado  contundente. Estamos nos distanciando da meta", alerta Priscila Cruz, diretora executiva da ONG. Depreender o que h de melhor no exemplo daqueles que conseguiram se destacar da zona da mediocridade pode ser um bom comeo para recuperar o tempo perdido e dar o necessrio salto de qualidade. 

UM PASSO PARA TRS
O novo relatrio da ONG Todos pela Educao mostra que as metas para avanar no ensino mdio no foram atingidas (Dados baseados no ltimo Saeb, de 2011)

Percentual de alunos com desempenho adequado
PORTUGUS 
Meta 31%
2009: 29%
2011: 29%
ESTAGNOU

MATEMTICA
MATA 20%
2009: 11%
2011: 10%
PIOROU


